Legenda: Mary Meeker na Code Conference 2019 (Reprodução YouTube Code/Recode)

Entre os dias 10 e 12 de junho, em Scottsdale, Arizona (EUA), aconteceu a edição 2019 da Code Conference, um dos mais badalados eventos anuais do setor de tecnologia. Em meio a uma programação recheada de nomes de peso, mais uma vez uma das apresentações mais esperadas pelo público — e pelos fãs de tendências no mundo todo — foi a Internet Trends, de Mary Meeker. Apelidada de “Rainha da Internet”, Meeker atualmente é sóciana firma de capital de riscoBond Capital, além de ter um longo histórico trabalhando com investimentos, internet e novas tecnologias.

Durante sua meia hora no palco, Meeker percorreu rapidamente os 333 (!) slides resultantes da pesquisa, sempre reforçando que o material tinha sido produzido para ser lido e não apresentado. Apesar do ritmo acelerado, só na fala dela já foi possível pescar diversos dados impactantes, que tratam desde o número de usuários de internet no mundo até a ascensão do modelo de negócios freemium, como Spotify, por exemplo, passando pelo volume de gastos em publicidade digital nos EUA e até mesmo a popularização dos serviços de entrega como Rappi na América Latina (você encontra um resumo das principais tendências destacadas por Meeker, além da apresentação completa em slides aqui). Mas, como não poderia deixar de ser, a parte que mais nos saltou aos olhos foi o capítulo da pesquisa inteiramente dedicado a dados (slides 121 a 157; minuto 13:51 ao 18:02 no vídeo).

Um pouco de história

O trecho da apresentação dedicado ao tema destaca como o crescimento de dados mudou e está mudando rapidamente e de forma global a maneira como as coisas funcionam, partindo de uma relação direta entre pessoas para uma relação mediada pelos computadores. Para ilustrar tais mudanças, Meeker primeiro traçou um panorama histórico da utilização de dados por empresas de sucesso para melhorar a experiência dos consumidores:

Antes de 1995: dados e insights humanos

- A IBM desenvolveu uma equipe de vendas altamente informada sobre as operações de seus clientes e que podia explicar os benefícios específicos dos produtos da marca para cada organização.

- Na Nike, os empregados todos eram também corredores, assim a empresa entendia em primeira mão as necessidades dos consumidores.

- A Chrysler investiu em focus groups para saber o que os consumidores queriam e acabou inventando as minivans, um grande sucesso até hoje.

- A Intuit, empresa de softwares para finanças, aplicou testes de usabilidade com pessoas comuns para melhorar seus programas.

Após 1995: dados e insights digitais

- A holding financeira Capital One transformou o negócio de cartões de crédito em um negócio de informação, o que permitiu a captura de todas as transações e interações dos clientes. Com isso, foi possível conduzir testes e construir modelos de comportamento do consumidor para criar produtos e soluções customizadas.

- A Amazon passou a capturar as informações digitais dos consumidores em tempo real para evoluir o e-commerce e acelerar o processo de descoberta utilizando suas famosas recomendações de produtos.

Legenda: Mary Meeker na Code Conference 2019 (Reprodução YouTube Code/Recode)

Após os anos 2000: construção e uso de ferramentas de data plumbing (a tecnologia e as conexões entre sistemas de dados na computação em nuvem) para uso em tempo real, ajudando as empresas nos processos de:

Coleta de dados: entender os desejos dos consumidores e melhorar os processos de negócio (ex: Qualtrics + FabFitFun); aumentar os inputs dos consumidores e melhorar os produtos (ex: Salesforce + Adidas); gerenciar diretamente o relacionamento com consumidores e assinantes (ex: Stripe + Slack); melhorar a tomada de decisão dos consumidores (ex: Plaid + Betterment).

- Gerenciamento de conexões: organizar a comunicação interna e externa (ex: Slack + HelloFresh); se comunicar com os consumidores por múltiplos canais (ex: Twilio + Shopify); organizar os dados dos consumidores nos diferentes sistemas de TI (ex: Segment + Meredith).

- Otimização de dados: melhorar a análise, as recomendações e a personalização (ex: Snowflake + Instacart); responder em escala às ações dos clientes (ex: Confluent + Accor); descobrir insights de negócios e otimizar o fullfilment (ex: Looker + FarFetch); gerenciar o crescimento de dados e eliminar ineficiências (ex: UiPath + Sumitomo Mitsui).

para descrições mais aprofundadas dos exemplos citados, consulte a apresentação completa da pesquisa Internet Trends 2019

Daqui para a frente: inteligência artificial, regulamentação e crescimento extraordinário

Após o mergulho profundo no passado — longínquo e recente — do uso de dados, Meeker voltou seu olhar para o presente e o futuro do segmento. Primeiro, com a questão da inteligência artificial, que, se usada com propriedade, pode melhorar a satisfação dos consumidores. De acordo com estudos examinados pela pesquisa, 91% dos consumidores preferem marcas que oferecem ofertas e recomendações personalizadas, ao passo que 83% se dizem dispostos a compartilhar dados de forma passiva em troca de experiências personalizadas e 74% o fariam de forma ativa.

A regulamentação, um dos assuntos mais quentes do momento no que diz respeito a dados, não poderia ficar de fora. “[As novas regulamentações] devem proteger o seu direito de escolher como os seus dados são usados ao mesmo tempo em que permitem que as empresas usem informações para propósitos de segurança e para oferecer serviços”, diz a frase de ninguém menos do que Mark Zuckerberg, escolhida para ilustrar a situação.

report em seguida trata da evolução rápida e ampla do volume e da utilização de dados no mundo. O gráfico abaixo, parte da apresentação Internet Trends 2019, ilustra o crescimento extraordinário da chamada “Datasphere”, montante combinado de novos dados capturados, gerados e replicados, de acordo com a consultoria IDC. Destaque para os 13% de dados estruturados (organizados para pesquisa e incluindo metadados e dados M2M, de máquina para máquina) em 2018 e que devem chegar a 32% em 2025.

Legenda: Evolução da Datasphere (Reprodução Internet Trends 2019 Mary Meeker/Bond Capital)

Meeker também destacou a arquitetura da “Datasphere” como analisada pela IDC (ver imagem abaixo), constituída por “Core” (o núcleo; data-centers computacionais e provedores da nuvem, públicos ou privados), “Edge” (as bordas; servidores que não estão no núcleo, torres de celular e data-centers menores locais e remotos para melhorar tempo de resposta) e “Endpoints” (pontos finais; todos os devices ligados na ponta da rede, incluindo PCs, smartphones, sensores industriais, carros conectados e wearables). A propagação desses dados vai do núcleo até os pontos finais e no sentido inverso.

Legenda: Arquitetura da Datasphere (Reprodução Internet Trends 2019 Mary Meeker/Bond Capital)

Do ponto de vista do armazenamento de dados, observa-se que os data-centers de empresas já ultrapassaram os devices dos consumidores enquanto que a nuvem, que se coloca como o grande novo núcleo de armazenamento, tende a superar tanto os devices (até 2020) quanto os data-centers empresariais (até 2021), ainda de acordo com a IDC (ver gráfico a seguir).

Legenda: Armazenamento de dados (Reprodução Internet Trends 2019 Mary Meeker/Bond Capital)

Meeker escolheu destacar uma citação do estudo The Digitization of the World — From Edge to Core (IDC), dos quais extraiu os últimos dados, para ilustrar para onde estamos caminhando:

“O mundo orientado por dados estará sempre ligado, rastreando, monitorando, escutando e assistindo, porque ele estará sempre aprendendo. O que nós percebemos como aleatoriedade será ligado a padrões de normalidade por sofisticados algoritmos de inteligência artificial que vão entregar o futuro de formas novas e personalizadas. A inteligência artificial vai provocar ainda mais automação nos negócios e alimentar processos e compromissos que vão entregar novos níveis de eficiência e produtos criados sob medida para objetivos de negócios e preferências individuais dos consumidores. Hoje, as empresas estão usando dados para melhorar a experiência dos consumidores, abrir novos mercados, tornar empregados e processos mais produtivos e criar novas fontes de vantagem competitiva. (…) Paradigmas tradicionais serão redefinidos (como a posse se veículos ou eletrodomésticos de linha branca) e normas éticas, morais e sociais serão desafiadas (…).”

Para encerrar esse capítulo de sua apresentação, Meeker ainda destacou que a capacidade de adaptação dos seres humanos frente às mudanças tecnológicas está aumentando, porém não o suficiente para nos mantermos em dia com as inovações tecnológicas e científicas (gráfico abaixo). E para superar isso? Ela indica que será necessário que nos adaptemos desenvolvendo habilidades que permitam aprendizado e experimentações mais rápidas. E destaca que essas habilidades seriam particularmente importantes para aqueles que criam políticas e regulamentações que visam proteger o interesse público, pois eles precisam estar sempre prontos para tentar novas abordagens, testar e mudar de acordo com os novos tempos para que o progresso tecnológico esteja de mãos dadas com os benefícios para a população em geral.

Legenda: Evolução tecnológica x adaptabilidade humana (Reprodução Internet Trends 2019 Mary Meeker/Bond Capital)